OZ DESIGN

Deixe sua marca - Breve reflexão sobre um tempo

Miscelânea , Pensar Design

"Quem não entende um olhar, muito menos entenderá uma longa explicação."
Provébio Árabe


Tempos modernos.

Velocidade, complexidade, competitividade, diversidade e ansiedade são os traços visíveis desse nosso admirável mundo novo.

Somos todos convocados, de forma acelerada, a contemplar alternativas crescentes, atribuir valor, escolher, e decidir diversas vezes ao dia. Em cada decisão nossa desenhamos uma vida, uma jornada, uma história e uma identidade, deixando nossa marca no mundo.

Esta obra coletiva é o que chamamos de espírito de um tempo. Zeitgeist.

Culturas são definidas, ao longo da história, pelos grandes agentes sociais. As corporações são hoje esses núcleos em torno dos quais organizamos nossas vidas, crescemos como indivíduos e como grupo, e desenhamos a sociedade em que desejamos viver e sermos felizes.

Reconhecemos essas corporações pela forma como elas deixam suas marcas na sociedade, provocando nossa atenção, interesse e afeto.

Num cenário de informação e competitividade globalizada, estas corporações passaram a ter que enfrentar o dilema de conviver com o diferente ao mesmo tempo que se tornando cada vez mais parecidas.

Assim, inovação passou a ser um mantra inquestionável, reflexo dessa dinâmica de supervalorização do “novo” como a única expressão possível da qualidade e da identidade, ainda que efêmera.

Tendências são perseguidas por perdigueiros de oportunidades de negócios, numa corrida desenfreada para “chegar antes” ao coração do comportamento do “consumidor”. Antecipar, antever, prever, prover.

Sofisticamos a qualidade do queijo, deixando intacta a lógica da ratoeira.

Run, Forrest, run!!!

E então me perguntei: qual é o papel do Design neste contexto? Estamos diante de um problema de forma ou será um problema de conteúdo o que temos a enfrentar, quando convidados a usar nossa sensibilidade e talento para transformar o mundo na direção de um mundo melhor?

O mundo dos negócios percebeu algo de especial em nossa forma de solucionar problemas, algo inexplicável e “misterioso”. Livros começam a ser escritos sobre o tal do “Design Thinking”, a maneira como pensa um Designer, que vira uma nova disciplina. Escolas de administração e negócios começam a ensinar executivos a “pensar fora da caixa”, a pensar como Designers, ao mesmo tempo em que empresas começam a convidar Designers para seus Conselhos ou para ocupar seus altos cargos de gestão, para serem seus CEOs.

O que isto quer dizer?

Pensamos diferente?

Convidado a debater sobre este tema em um Congresso Internacional de Design e Negócios, em Vancouver, com o tema “Design Currency - O Valor do Design”, procurei refletir e  oferecer uma visão construída na prática de 30 anos de relação com as necessidades, os anseios e a visão que nos chega do mundo das marcas e das corporações.

E então, pensamos diferente?

Percebi então que a grande questão do “Design Thinking” não está no “Thinking”, mas no “Feeling”!!

Não pensamos diferente, mas não só pensamos. Nós, Designers, também sentimos.

Desde que que o iluminismo e o cientificismo passaram a ditar nosso comportamento e que a razão passou a ser a nova religião do mundo moderno, talvez tenhamos, homo sapiens, nos esquecido de preservar nossa capacidade de “entender” o mundo também através de nossa sensibilidade.

      "Intelligence is quickness in seeing things as they are"
      George Santayana The Life of Reason: Reason in
      Common Sense


Nossa inteligência, temos que lembrar, não está apenas na capacidade de “entender” o mundo, mas também e antes de tudo de “sentir” o mundo. Essa experiência sensível, estética, abandonada na nossa formação, quando só desenhávamos e fomos educados para escrever e pensar logicamente, usando o lado esquerdo do cérebro, pode ser o grande lapso de formação que nos levou a nos transformarmos numa sociedade de pensadores insensíveis, perdendo 50% de nossa inteligência, de nossa capacidade de sentir o mundo e de “ver as coisas como elas são.”

Há uma parcela macia de nossa essência, um lado sensível onde delicadeza, detalhe, sutileza, elegância, afeto, auteridade, sagacidade, empatia, intuição, generosidade, expressividade, poesia, música, dança e arte podem ter ficado adormecidos por tempo demais, para a maioria de nós, para os gestores, principalmente, e cabe agora jogar alguma luz sobre este tema, para que um “despertar” possa ser experimentado, iluminando com calma, sensibilidade e reflexão a velocidade de resultados que nos oprime a todos.

      A arte é feita para perturbar; a ciência tranqüiliza.
      Georges Braque


O Design foi sempre esse território de fronteira entre ciência e arte, e por isso é lá que pode estar a chave deste despertar, a preservação do valor que a reintegração de nossas duas “metades”, razão e emoção, podem ter para desenhar um novo momento e um novo tempo.

Perturbando e tranquilizando.


Ronald Kapaz © May, 2010

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